quarta-feira, 12 de março de 2014

Condenação


De tijolo, carne e osso

Carpinteiro, pedreiro, peão

É Cícero, Josué e João

Aliciados para construção

Vem do Piauí, Maranhão

Pro curral, penitenciar

Na usina do jirau

Nem comida, nem proteção

Ilusão, produção

No desenvolver acelerado

Do crescimento da nação

É pura condenação



Carmem Borja


sábado, 8 de março de 2014

MIR



A pobreza, a inércia

Todos se foram

Anos da cor do damasco

Dias como o deserto

De frente para o espelho

Dança, equilibrando a cimitarra

O tempo é mais rápido

Que braços e pernas

Na dança da espada



Carmem Borja



domingo, 20 de maio de 2012

O Pirilampo e o Sapo - Leonor de Almeida Lorena e Lencastre - Marquesa de Alorna ( Alcipe- 1750-1789)

Lustroso um astro volante
Rompeu das humildes relvas:
Com seu vôo rutilante
Alegrava à noite as selvas.

Mas de vizinho terreno
Saiu de uma cova um sapo,
E despediu-lhe um sopapo
Que o ensopou em veneno.

Ao morrer exclama o triste:
"Que tens tu de que me acuses?
Que crime em meu seio existe?
Respondeu-lhe: " Por que luzes!"



Fábulas- Lendas, Fábulas e Apólogos- Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna(Alcipe - 1750-1839-

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Punhados de: CORCÉIS CELESTES - Bruce Chatwin

     O imperador Wu-ti (145-87 a.C) foi o mais espetacular ladrão de cavalos da História. Sonhava possuir algumas éguas e garanhões que pertenciam a um monarca obscuro dos confins do mundo conhecido e quase deu cabo da China na sua ânsia de os apanhar.
     [.....] De todos os soberanos que clamavam o Mandato do Céu, Wu-ti encontrava-se entre os menos modestos.
     [.....] No entanto, o seu reino, em relação ao do seu predecessor, Shih-Huang-ti, o Grande Unificador, constituía uma melhoria. Não perseguia os intelectuais nem lhes queimava os livros, preferindo manipular os seus súbditos sem ter de os massacrar. Como todos os fleumáticos, era vítima da dúvida. Porque é que o rio Amarelo havia de querer rebentar com as represas construídas pelos homens?
     - Estás a violar as leis da natureza! - gritou à inundação.
     [.....] A civilização chinesa, como a do Egipto, nasceu nas margens dos grandes rios. Segundo o ritual, o imperador era a Autoridade- Chefe das Águas;o seu governo, uma máquina para controlar a mão de obra; os seus celeiros, o banco nacional, que podia tão bem alimentar quanto esfomear o povo.
     Os decretos imperiais costumavam começar assim: << O mundo funda-se na agricultura>>; o mundo estável - o único concebível - dependia de milhões de pessoas agrilhoadas à terra num trabalho árduo e rotineiro. Daí o horror dos funcionários quando a máquina emperrou. E o seu temor a pensarem nos nómadas às portas das fronteiras do norte. E a Grande Muralha - construída menos para se defenderem dos invasores do que para manterem o seu próprio povo fechado lá dentro.
     Um mar de ervas estende-se para oeste, da Manchúria à planície húngara. Ao longo do horizonte ondulante, nómadas a cavalo conduziam o gado em busca de pastagens. No inverno, abrigavam-se do buran, ou o vento branco invernal, de encontro às montanhas; na primavera, repousavam quando as flores atapetavam o solo. Eram homens corpulentos , colados ao cavalo desde a infância, rostos vermelhos como as suas botas de cabedal. Os elementos que os endureciam também lhes davam uma atitude de espírito inflexível. O movimento perpétuo era o seu credo, não apenas para evitar as desastrosas consequências de ficar quieto, mas como um fim em si. Aos seus olhos o homem nascera para migrar, o sedentarismo era uma perversão de degenerados e isso de lavrar a terra para a cultivar, um crime.[....] .A migração constituía o seu ritual. E a sua música era o uivo dos cães, o tinir dos guizos e o martelar das patas dos cavalos.
     No reinado de Wu-ti, os nómadas que rondavam as fronteiras setentrionais da China eram os Hsiung-nu, os quais voltariam a aparecer sob o nome de Hunos, quatro séculos mais tarde para destruir o Império Romano.
     [.....] Wu-ti tinha de arranjar cavalos para derrotá-los. Cavalos mais velozes que os póneis da estepe, pois naqueles tempos, anteriores aos bombardeamentos aéreos, o poder de qualquer império dependia da cavalaria.
     [.....] A quase cinco mil quilómetros de distância, do outro lado, do Tecto do Mundo, encontravam-se os estábulos do rei de Ferghana. Wu-ti tinha de apossar-se daqueles cavalos a todo custo.Todas as curiosidades do Ocidente, os prestidigitadores ou os ovos de avestruz não valiam nada comparados com as Crias Celestes. Tentou, em primeiro lugar, a diplomacia, oferecendo um cavalo de ouro em troca dos de carne e osso. Mas o povo de Ferghana já se cansara dos presentes chineses e iludiu a questão.
     [.....] Wu-ti soltou todos os criminosos do seu reino e mandou domadores de cavalos e engenheiros hidráulicos para desviar o curso dos rios de Ferghana, organizando igualmente um sistema de abastecimento de arroz para toda a viagem. [....] O seu exército cercou a capital de Ferghana. Os habitantes liquidaram o seu velho e irritável rei e prometeram dar a Li-Kuang-li (general no comando das tropas de Wu-ti), os seus melhores corcéis celestes, se ele levantasse o cerco. Escolheu trinta animais de reprodução ( com a promessa de que todos os anos seriam enviados outros dois) e três mil outros de raça inferior.
     [.....] Que Cavalo Maravilhoso era esse que suava sangue? Após tanto tempo passado, é difícil de dizer. Mas uma coisa é clara: os reis de Ferghana tinham capturado um animal de sangue quente, o que significa , como qualquer entendedor pode confirmar, que provinha do Próximo Oriente. Algures na África do Norte ou no Sudoeste Asiático, tinha existido outrora o antepassado do cavalo árabe.
     [.....] Na mitologia chinesa, o cavalo era o << veículo >> mágico que escoltava os imperadores lendários até o paraíso, algures no Extremo Ocidente. Era o << amigo do dragão>> e <>. Wu-ti procurou esse animal durante toda a sua vida. Em 121 a.C um estranho cavalo tinha emergido do rio Ordos, mas acabou por revelar-se uma decepção. Quando finalmente os verdadeiros corcéis celestes chegaram à China, Wu-ti deve ter tido o pressentimento da sua partida iminente. <> E foi por isso que manteve os cavalos perto do palácio, prontos para a viagem com que sonhara.
     Uma manhã, quando todos os presságios se revelassem propícios, sairia dos seus aposentos. Uma doce melodia estaria a tocar. o imperador subiria então para o carro puxado pelos cavalos do vento. Subiriam no ar suavemente e voariam rumo à terra da paz eterna. A rainha mãe do Ocidente viria acolhe-lo às muralhas de jade e dar-lhe-ia um dos celebrados pêssegos que amadureciam todos os seis mil anos. E a pele enrugada do imperador voltaria a recuperar a maciez da juventude......


Do Livro O Que Faço Eu Aqui? Bruce Chatwin- (1940-1989). A prosa "chatiwiniana", no seu livro póstumo; uma "selecção pessoal" de ensaios, retratos, meditações, relatos de viagens, reunidas durante o seu terrível último ano de vida>>Salman Rushdie, The Observer

sábado, 28 de abril de 2012

A importância do chi kung no Tai Chi Chuan - Wong Kiev Kit

O desenvolvimento da força interior


Tai Chi Chuan sem chi kung não é Tai Chi Chuan, pois nesse caso o Tai Chi Chuan se resumiria a um tipo de exercício suave que talvez oferecesse alguns benefícios em termos de circulação do sangue e divertimento, mas provavelmente não traria a vitalidade e a clareza mental geralmente atribuídas ao treinamento do Tai Chi Chuan

Saúde, combate e espiritualidade

Os estudantes de Tai Chi não podem se defender se praticarem apenas as posições do Tai Chi. Se desejarmos uma defesa pessoal eficiente, teremos de desenvolver a força interior e praticar as aplicações de combate dessa arte marcial. Sem a força interior, não podemos desenvolver nem mesmo uma boa saúde. E a preocupação com a saúde é outra importante razão, além da defesa pessoal, pela qual as pessoas praticam o Tai Chi Chuan. Sem a força interior e as aplicações de combate, O Tai Chi degenera para uma dança; graciosa e elegante, é verdade, mas nada mais do que isso. [.....] Na verdade, o chi kung do Tai Chi e a força interior do Tai Chi muitas vezes são usados como sinônimos, embora tecnicamente falando, o chi kung seja o método, enquanto a força interior é o efeito produzido por esse método.
O chi kung, que literalmente significa " a arte da energia", é um termo abrangente que se refere a centenas de sistemas de treinamento que desenvolvem a energia cósmica para diversas finalidades, principalmente relativas à saúde, a eficiência em combate, à expansão da mente e ao aprimoramento espiritual. É digno de nota o fato de que tanto a pronúncia quanto a palavra chinesa para chi no termo chi kung sejam diferentes daquelas do Tai Chi Chuan. Chi kung é pronunciado "ch'i kung" e é escrito qigong, em chinês românico, enquanto Tai Chi Chuan é pronunciado como "T' ai Ji Chuan" e é escrito Taijiquan. Todavia para a conveniência dos leitores ocidentais, aqui é usada a grafia românica para ambos os termos.
O treinamento do chi kung como parte integrante do Tai Chi Chuan é essencial não apenas para a defesa pessoal eficaz, mas também para a boa saúde. Tai Chi Chuan sem chi kung não é Tai Chi Chuan[.....].
A principal conquista do Tai Chi Chuan é o desenvolvimento espiritual, que eleva a arte, como por exemplo o kung-fu shaolin, muito acima  do nível das artes de combate comuns. O desenvolvimento espiritual no Tai Chi Chuan está intimamente relacionado , ou é sinônimo, do culto taoísta, que não é religioso, pois não envolve dogmas ou adorações e pode ser praticado por pessoas de qualquer religião.O culto taoísta [....], compreende três estágios, ou seja cultivar o jiing (essência) para tornar-se chi(energia), cultiva o chi para tornar-se shen (espírito) e cultivar o shen para retornar ao cosmo. o Chi kung é pois, a ponte que liga o físico(jiing) ao espiritual (shen).



O Livro completo do TAI CHI CHUAN- Wong Kiew Kit- A arte do Tai Chi Chuan, exercita o corpo e a mente com suavidade, regula o fluxo de energia e pode ser usada para beneficiar a saúde e aumentar a longevidade, além da defesa pessoal. Os mestres do passado empregavam o Tai Chi Chuan para cultivar o espírito.O escritor é a quarta geração na linha de sucessão do monge Kiang Nan do Mosteiro Shaolin e grão mestre do Instituto Shaolin Wahnam de Kung-fu.

domingo, 25 de março de 2012

Punhados de: Maria Reiche: O enigma do Pampa - Bruce Chatwin

     [......] Esta planície, o Pampa de Ingenio, está coberta por uma delgada camada de areia e calhaus que apresenta traços de oxidação acastanhados. Tem uma textura de merengue e cobre um leito de aluvião esbranquiçado. Se alguém caminha neste pampa deixa pegadas brancas que durarão séculos.
     Há perto de 2000 anos, os habitantes locais deram-se conta de que podiam servir-se do pampa como de uma gigantesca placa de gravura e, ao longo de várias gerações, fizeram o que é certamente a maior e uma das mais belas obras de arte do mundo. A superfície do deserto é sulcada por uma teia de linhas rectas ligando-se a enormes formas geométricas- triângulos, rectângulos, espirais, ziguezagues flageliformes e trapézios sobrepostos - que se assemelham ao trabalho de um artista abstracto ultra-sensível e supercaro. Há linhas tão estreitas como caminhos de cabras e outras tão largas como pistas de aeroportos. Umas convergem num único ponto, outras estendem-se ao longo de oito quilómetros ou mais, atravessando vales e falésias sempre a direito. Estes desenhos não fazem sentido vistos do solo e nenhuma fotografia aérea lhes faz verdadeiramente justiça, mas, de avioneta, fica-se boquiaberto perante a sua escala e a imaginação de seus criadores.
     Planando no céu, ao sabor das correntes térmicas que se elevam da planície, distinguem-se outras figuras. Além das formas geométricas, há um autêntico jardim zoológico de animais e pássaros, que mais parecem desenhos de Steiberg feitos em grandes dimensões. Vê-se uma baleia. Um pássaro de guano, um pelicano, um beija-flor, outras aves irreconhecíveis e uma fragata com um papo debaixo do bico. Há também um cão. Um macaco-aranha da Amazônia com uma cauda pênsil enrolada para cima numa espiral. Há o desenho de uma aranha ( pertencente à espécie Ricinulei, que copula com as patas traseiras). Há a cabeça de um sapo; uma flor; uma espécie estranha de alga; e uma animal meio ave meio-serpente. Há igualmente um lagarto cujo corpo está seccionado em dois pela estrada.
     As linhas do Pampa de Ingenio foram descobertas nos fins de 1920 pelos serviços topográficos aéreos do Peru.
     [.....} Se os seus criadores não possuíam aviões e, por conseguinte, não podiam admirá-la adequadamente, qual era a finalidade desta obra colossal? Como podia um povo de simples camponeses e guerreiros ter dominado àquele ponto a técnica da topografia sem conhecimentos matemáticos de alto nível?
     Por sorte, a visita de Kosok coincidiu com o solstício de Inverno, a 21 de Junho, o dia mais curto do ano no hemisfério sul. Ao pôr do Sol, quando atravessava o pampa no sítio em que várias linhas estavam orientadas na direcção leste oeste, teve a grande alegria de notar que o Sol tocava um ponto onde uma das linhas alcançava o horizonte. Concluiu assim que essa linha tinha sido traçada para determinar a data do solstício de Inverno. Prosseguindo aquele raciocínio, chegou à conclusão de que todas as linhas e formas geométricas eram utilizadas como pontos de referência a fim de calcular o nascer e o por do Sol, da Lua e das estrelas. Os Nazcas, afirmou, tinham imprimido no deserto "o maior livro de astronomia do mundo".
     [.....] Era um modesto império de guerreiros e agricultores que tinham prosperado e atingido o seu declínio entre os séculos II e VIII da nossa era. Desenvolvera-se em duas direcções: através da cordilheira andina até as florestas, com os seus beija-flores, macacos e aranhas; e no sentido da costa, onde ilhas cobertas de guano flutuam no mar revolto e prateado. Ninguém conhece o verdadeiro nome do povo Nazca. Primeiro, fora absorvidos pelos Incas, e mesmo por impérios precedentes, e, a seguir, os espanhóis massacraram as populações desses vales, assegurando-lhes o anonimato do esquecimento. Pode-se apenas reconstituir a sua vida a partir dos objectos que enterraram juntamente com os mortos, o que constitui uma tarefa arriscada, pois a violação de sepulturas é um passatempo nacional e os ladrões (os huaceros) já pilharam quase todos os cemitérios. As vertentes dos vales estão crivadas dos buracos que fizeram.
     Nos seus campos retalhados, irrigados anualmente pela torrente dos Andes, os Nazcas cultivaram a batata, a batata doce, o abacate, a pimenta, o feijão de lima, o milho, a mandioca, o ananás, a goiaba e um grande número de cereais, frutos e legumes pouco conhecidos.Dispunham de barcos de pesca e de jangadas, com os quais explorava mal um dos melhores lugares de pesca do mundo. Como carne, comiam lamas e grandes quantidades de porquinhos-da-índia. Teciam e tricotavam alguns dos têxteis mais belos que jamais se viu. Utilizavam cada centímetro quadrado das terras do vale para cultivar e implantavam as casas, templos e cemitérios na orla desértica.
     Em termos globais, o povo Nazca parece ter sido alegre e bastante democrático, consciente dos aspectos cósmicos da vida e de temperamento fundamentalmente diferente dos seus vizinhos do Norte, os sinistros Mochicas. Contudo, partilhavam pelo menos um dos seus costumes mais desagradáveis - o culto das cabeças decepadas, de preferência a cabeça de um inimigo derrotado.
     [.....] Maria Reiche chegou ao Peru em 1932.
     [.....] Após ter vivido sete anos no Peru, encontrou Paul Kosok, que tinha acabado de descobrir as linhas, mas que encarava a hipótese de regressar aos EUA. Quando ele lhe mostrou o pampa e sugeriu que pusesse em prática os seus conhecimentos de astronomia, ela deu-se conta de que encontrara a obra da sua vida.
     Durante quase quarenta anos, passou a maior parte do tempo no deserto. Dorme sozinha, ao relento, numa cama de pedras, pois quase nunca chove.[.....]


Do Livro O Que Faço Eu Aqui?, livro póstumo de Bruce Chatwin, Editora Quetzal.Um dos mais aclamados escritores da literatura de viagens de sempre. Foi jornalista do Sunday Times Magazine."Toda minha vida foi uma procura do miraculoso". Bruce Chatwin, 1983 . Seu livro Na Patagônia, um clássico da literatura contemporânea, que segundo  The Guardian, "conferiu novos contornos à literatura de viagem".

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Punhados de : Rakushisha - Adriana Lisboa - romance haikai.

17 de junho


     Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil. Dá para ter em mente pequenas metas: primeiro só a esquina. Aquele sinal com a faixa de pedestres e o homem esperando para atravessar com um guarda-chuva transparente e um cachorro de capa amarela.
     O cachorro parece um labrador e olha para mim quando me aproximo.
     Tem uma cara afável. Somos ocidentais nós dois, amigo. Se bem que talvez você tenha nascido aqui, não é? Nasceu? No canil de um Criador? Claro, onde mais, você me responde, com a paciência dos labradores.
     Eu não nasci aqui. Não sei se você está muito interessado em saber. Sou do outro lado do planeta. Pode-se dizer que vim escondida dentro da bagagem de outra pessoa. É como se eu tivesse entrado clandestina, apesar do visto no meu passaporte. De fininho, para que não me vissem, para que não vissem as coisas invisíveis que eu trazia na mala. Que ninguém me veja ainda, que ninguém suspeite. Nesse sentido sou bem mais ocidental do que você, amigo de capa amarela. Não pertenço a este lugar.
     E por que exatamente estou aqui, então, você poderia me perguntar se tivéssemos mais tempo para trocar olhares, se a sua coleira e o seu dono já não fossem te puxando para as suas obrigações - sejam quais elas forem, acompanhar, guiar, divertir.
     Não sei muito bem, para ser honesta. Estive reaprendendo a andar. Estou reaprendendo a andar. Depois da tempestade, da era glacial, da grande seca, a gente pode usar a imagem que quiser, ninguém vai se importar muito, afinal quem somos nós se não menos do que anônimos aqui. Abriu-se esta porta. Agora não dá tempo de te contar como aconteceu. E ainda não seis se andar equivale a lembrar, se equivale a esquecer, e qual das duas coisas é o meu remédio, se nenhuma delas, se nenhuma opção existe e se andar é o mal e o remédio, o veneno que tece a morte e a droga que traz a cura. Se vim para lembrar - se vim para esquecer. Se vim para morrer ou para me vacinar. Talvez eu descubra. Talvez nunca seja possível descobrir, desvelar, levantar o toldo, remover qualquer traço de ilusão da ilusão de caminhar.
     Seja como for. É só colocar um pé depois do outro.
     Um pé depois do outro. Ignorar o peso das pernas. Afinal este corpo é uma máquina que não tem motivos para estar apresentando defeito, ainda não, este corpo viu pouco mais de três décadas, é possível que esteja programado para muito mais. Está? Não sei, não me interessa saber, mas é possível que sim. Supõe-se que os músculos se encontrem todos no lugar, e os ossos por baixo deles, e as sinapses transmitindo a intenção - a intenção não, a determinação, a ordem do cérebro. Esse déspota. Faça, ele diz. Mova-se. E as pernas se movem. Isso. Deve ser assim bem simples. Mova-se como um cão labrador de capa amarela atravessando o sinal conduzido por seu dono.
     Posso ir bem devagar, o meu devagar, porque estou sozinha. Posso escolher o ritmo da minha dificuldade de caminhar, o ritmo do peso das minhas pernas.
     O guarda-chuva tapa um pedaço do céu e a chuva é fraca, mas insisti em sair de sandálias e meu pé está ficando molhado. Paciência. Não é o mais importante, nem de longe. Que eles estejam secos ou que estejam molhados. Sinto a umidade um pouco fria da pele. Importante é que eles continuem se alternando sobre a calçada, mesmo que lentamente. [......}


Rakushisha - Adriana Lisboa - Escritora carioca, nascida em 1970, morou em Brasília, Paris e Avignon.Estudou Música, Literatura e foi flautista, cantora e professora. Vive em Denver. Este é o seu terceiro romance.Da  série língua comum, publicado por Quetzal Editores.- Lisboa - Portugal." Foi na Rakushisha - cabana dos diospiros caídos - , nos arredores de Kioto, que o poeta viajante Matsuo Bashô, imortalizado pelos seus haikai, se hospedou na sua última viagem e redigiu um dos seus diários. E foi no metro do Rio de Janeiro que Haruki e Celina se conheceram. Ele folheava um livro japonês, de cuja ilustração fora incumbido;ela era uma mulher triste e etérea, pedaço de céu recoberto pela fina epiderme humana, que se aproximou dele com curiosidade pelo escrito exótico.[.....]. As vozes dos dois protagonistas e os versos do poeta japonês entretecem-se num registro depurado,  a que não falta nem sobra uma só palavra, que faz de Rakushisha um romance haikai.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

SUBURBIOS - Pablo Neruda

Celebro las virtudes y los vicios
de pequenos burgueses suburbanos
que sobrepasan el refrigerador
y colocan sombrillas de color
junto al jardín que anhela una piscina:
este ideal del lujo soberano
para mi hermano pequeño burgués
que eres tú que soy yo, vamos diciendo
la verdad verdadera en este mundo.


La verdad de aquel sueño a corto plazo
sin oficina el sábado, por fin,
los despiadados jefes que produce
el hombre en los graneros insolubles
donde siempre nacieron los verdugos
que crecen y se multiplican siempre.


Nosotros, héroes y pobres diablos,
débiles, fanfarrones, inconclusos,
y capaces de todo lo imposible
siempre que no se vea ni se oiga,
donjuanes y donjuanas pasajeros
en la fugacidad de un corredor
o de un tímido hotel de pasajeros.
Nosotros com pequeñas vanidades
y resistidas ganas de subir,
de llegar donde todos han llegado
porque así nos parece que es el mundo:
una pista infinita de campeones
y en un rincón nosotros, olvidados
por culpa de tal vez todos los otros
porque eran tan parecidos a nosotros
hasta que se robaron sus laureles,
sus medallas, sus títulos, sus nombres.


Poema do Livro O Coração Amarelo- Pablo Neruda (1904-1973)- Autor de mais de quarenta livros de poesia, deixou ao morrer oito livros inéditos, escritos quase simultaneamente: O Coração Amarelo, Livro das perguntas, Elegia, A rosa separada, Jardim de Inverno, 2000, O Mar e os sinos e Defeitos escolhidos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA - Eduardo Galeano

A POBREZA DO HOMEM COMO RESULTADO DA RIQUEZA DA TERRA

A Distribuição de Funções entre o Cavalo e o Cavaleiro


     Escreveu Karl Marx, no primeiro tomo de O Capital: " O descobrimento das jazidas de ouro e prata da América, a cruzada de extermínio, escravização e sepultamento nas minas da população aborígene, o começo da conquista e o saqueio das Índias Orientais, a conversão do continente africano em local de caça de escravos negros; são todos feitos que assinalaram os alvores da era de produção capitalista. Estes processos idílicos representam outros tantos fatores fundamentais no movimento da acumulação original".
     O saqueio,  interno e externo, foi o meio mais importante para a acumulação primitiva de capitais que, desde a Idade Média, possibilitou o surgimento de uma nova etapa histórica na evolução econômica mundial.À medida que se estendia a economia monetária, o intercâmbio desigual ia abarcando cada vez mais segmentos sociais e regiões do planeta. Ernest Mandel somou o valor do ouro e da prata arrancados da América até 1660, o espólio da Indonésia pela Companhia Holandesa das Índias Orientais desde 1650 até 1780, os lucros do capital francês no tráfico de escravos durante o século XVII, os ganhos obtidos pelo trabalho escravo nas Antilhas britânicas e o saque inglês da Índia durante meio século: o resultado supera o valor do capital investido em todas as indústrias européias até 1800. Mandel observa que esta gigantesca massa de capitais criou um ambiente favorável aos investimentos na Europa, estimulou o "espírito de empresa" e financiou diretamente o estabelecimento de manufaturas, dando um grande impulso à revolução industrial. Mas ao mesmo tempo, a formidável concentração internacional da riqueza em benefício da Europa impediu, nas regiões saqueadas o salto para a acumulação de capital industrial. " A dupla tragédia dos países em desenvolvimento consiste em que não só foram vítimas desde processo de concentração internacional, mas que também, posteriormente, tiveram de compensar o atraso industrial, ou seja, realizar a acumulação original de capital industrial, num mundo inundado pelos artigos manufaturados por uma indústria já madura, a ocidental".
     As colônias americanas foram descobertas, conquistadas e colonizadas dentro do processo da expansão do capital comercial. A Europa estendia seus braços para alcançar o mundo inteiro. Nem a Espanha nem Portugal receberam os benefícios do envolvente avanço do mercantilismo capitalista, embora fossem suas colônias as que, em grande parte, proporcionaram o ouro e a prata, que nutririam esta expansão. Como vimos, se bem que os metais preciosos da América iluminassem a enganosa fortuna de uma nobreza espanhola, que vivia sua Idade Média tardiamente e na contramão da história, simultaneamente selaram a ruína da Espanha nos séculos seguintes. Foram outras as comarcas da Europa que puderam incubar o capitalismo moderno, valendo-se em grande parte, da expropriação dos povos primitivos da América. A rapinagem dos tesouros acumulados sucedeu a exploração sistemática, nos socavãos e jazidas, do trabalho forçado dos indígenas e escravos negros, arrancados da África pelos traficantes.
     A Europa necessitava de ouro e prata. Os meios de pagamentos em circulação se multiplicavam sem cessar e era preciso alimentar os movimentos do capitalismo na hora do parto: os burgueses se apoderavam das cidades e fundavam bancos, produziam e trocavam mercadorias, conquistavam novos mercados. Ouro, prata, açúcar: a economia colonial, mais abastecedora do que consumidora, estruturou-se em função das necessidades do mercado europeu, e a seu serviço. O valor das exportações latino-americanas de metais preciosos foi, durante prolongados períodos do século XVI, quatro vezes maior que o valor das importações, compostas por escravos, sal e artigos de luxo. Os recursos fluíam para que os acumulassem as nações européias emergentes do outro lado do mar. Esta era a missão fundamental que trouxeram os pioneiros, embora além disso, aplicassem o Evangelho quase tão frequentemente como o chicote, aos índios agonizantes. A estrutura econômica das colônias ibéricas nasceu subordinada ao mercado externo e, em consequência, centralizada em torno do setor exportador, que concentrava renda e poder.
     Ao longo do processo, desde a etapa dos metais à provisão de alimentos, cada região se identificou com o que produzia, e produzia o que dela se esperava na Europa: cada produto, carregado nos porões dos navios que sulcavam o oceano, converteu-se numa vocação e num destino. A divisão internacional dotrabalho, ta l como foi surgindo junto com o capitalismo, parecia-se mais com a distribuição de funções entre o cavaleiro e o cavalo, como diz Paul Baran. Os mercados do mundo colonial cresceram como meros apêndices do mercado interno do capitalismo que emergia.




Punhados do Livro: As Veias Abertas da América Latina - Eduardo Galeano- " Desnuda o saque ao nosso continente que persiste desde o Descobrimento. Narra com clareza que as metrópoles podem mudar de sede, mas sua sede permanece insaciável."  Galeno de Freitas 
É a um só tempo, um e vários livros: história do saque continental desde os tempos das caravelas até os aviões a jato, o livro constitui síntese de economia política e manual de desditas". Hugo Neira- Expresso , Lima, Peru .

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A Jesus Nosso Senhor - Gregório de Matos

Pequei Senhor: mas não porque hei pecado,
Da vossa alta piedade me despido:
Antes, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, já cobrada,
Glória tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.


Gregório de Matos Guerra ( 1623 - 1696) - Nasceu em Salvador, passou a infância na Bahia e doutorou-se em leis em Coimbra. Sua veia satírica valeu-lhe a alcunha de "Boca do Inferno". Chegou a ser deportado para Angola, mas conseguiu voltar, indo viver no Recife, onde retomou seu modo de vida habitual, zombando de tudo e de todos . Escreveu poesias líricas, religiosas e satíricas, cronologicamente o primeiro poeta satírico brasileiro.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Punhados de: A Maçã no Escuro - Clarice Lispector

    [.....] Mas quando aquele homem chegou ao alto da encosta  - como se tivesse enfim captado uma ilusão perseguida a vida inteira e tocado na sua própria embriaguez, subitamente capturado por um redemoinho de finíssima alegria - o ar se abria em vento turbilhonante e livre. E ele se achou em pleno alarido que era tão inapreensível como se este fosse o som do poente.
     Ele não errara, pois! O que era? era o vento apenas. O que era? mas era o alto de uma montanha. Seu coração bateu como se ele o tivesse engolido. Ele, o homem, desembarcara.
     Era uma atmosfera de júbilo. De vazio e vertiginoso júbilo, como acontece inexplicavelmente a um homem no alto de uma montanha. Ele nunca estivera tão perto da promessa que parece ter sido feita a uma pessoa quando esta nasce. Estupidificado, ele abriu várias vezes a boca como um peixe. Parecia ter atingido aquela coisa que uma pessoa não sabe pedir. Aquela coisa a que obscuramente ele só poderia dizer: consegui. Como se tivesse provocado o mais fundo de uma realidade imaginada.Às vezes a pessoa estava tão ávida por uma coisa, que esta acontecia, e assim se formava o destino dos instantes, e a realidade do que esperamos: seu coração, ansioso por bater amplo, batia amplo. E como para um pioneiro pisando pela primeira vez em terra estranha, o vento cantava alto e magnífico.
     Com que sentido o homem cansado o percebeu, não se sabe dizer, talvez com a aguda sede e com sua derradeira desistência e com a nudez de sua incompreensão: mas havia júbilo no ar. Que na verdade lhe foi tão inassimilável quanto aquele azul quase inventado do céu e que, como todo azul suavíssimo, terminou por tonteá-lo em glória tola e em nobre glória. A armadura interior do homem faiscou. Inatingível, sim, mas havia júbilo no ar como lhe tinha sido prometido alguma vez em procissões ou em algum rosto quieto de mulher ou na idéia de um dia alcançar que termina por precipitar o alcance. E àquele homem, que era um exagerado, pareceu que por assim dizer trabalhara duramente para chegar a essa coisa valiosa e inútil. Seria um sorriso imbecil o seu, se um espelho o refletisse.
     Foi então que Martim percebeu que estivera andando no planalto imenso de uma serrania, cujas primeiras ingremidades ele certamente havia galgado durante a noite, julgando dificuldade sua o que fora a dificuldade de uma subida nas trevas; e mais tarde, tomando como cansaço seu o que na verdade fora uma aproximação gradativa do sol. Mas o que importava é que ele chegara.[......].




A Maçã no Escuro - Clarice Lispector - É um romance dos anos 50, só foi publicado em 1961.Clarice nasceu na Ucrânia , chegando ao Brasil com dois meses de idade. Faleceu em dezembro de 1977.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Meditação Sobre o Roubo - José Saramago- Crônica

     Aqueles de nós que leram Os miseráveis nos tempos de outrora (quem tem hoje a paciência de aturar Victor Hugo?), lembram-se de que foi por causa do roubo de um simples pão que Jean Valjean esteve dezenove anos nas galés. Pequenas causas, grandes efeitos. Um espírito objectivo, desses que tudo pesam e medem , escrupulosos até a mínima caspa, dirá que se Jean Valjean tivesse cumprido resignadamente a pena que a sociedade lhe impusera, não teria estado preso mais do que cinco anos. O mal estava na sua rebeldia, na absurda ânsia de liberdade que o levou a tentar fugir por quatro vezes. Enfim, casos tristes.
     Vêm-me estas reflexões a talhe no momento em que reconstituo na memória a minha desamparada deambulação pela grande sala do Museu Britânico que contém as esculturas arrancadas ao Parténon. Digo, desamparada deambulação porque não acredito em suficiência bastante que dê ao visitante um verniz sequer de serenidade. Ou então esse visitante é estúpido.Mesmo um cego, com seus olhos digitais, estremecerá de comoção se passar os dedos pelas figuras antiquíssimas dos frisos e das métopes. Imagine-se pois que o privilégio de uns olhos intactos, ainda que míopes, pode dar.
     Mas eu estava falando de Jean Valjean e do pão que não era seu e que ele roubou. E estou diante das esculturas do Parténon. E tenho a rodear-me o conforto do aquecimento inglês. Mas sinto frio.
     O erro, afinal, está em roubar pouco. Dezenove anos passou Jean Valjean nas galés, e depois que saiu vejam lá quantas desgraças ainda lhe caíram em cima, com aquele patife do Javert a persegui-lo, consoante Victor Hugo nos vai relatando, tintim por tintim. E o Thomas Bruce, diplomata, homem decerto finíssimo, nascido para mal da Grécia, com manhas de salteador, vai e saqueia a Acrópole de Atenas, arranca pedras com dois mil e quinhentos anos, leva tudo para Londres - e ninguém o perseguiu, ninguém lhe fez mal e até pelo contrário, e hoje está na história como um grande homem, ao passo que o Jean Valjean só por causa do pão foi o que se viu, e para não ir mais longe, aí está o nosso José do Telhado que até roubava os ricos para dar aos pobres.
     Digam-me agora como se pode entender este mundo. Vagueio perplexo pela sala enorme e nos primeiros minutos nada consigo ver. Penso continuamente: "Foi isto que eles roubaram? Toda a gente está de acordo? E não se faz nada?Não se institui um tribunal supremo para o julgamento e punição dos grandes latrocínios?Não se dá o seu a seu dono?".Depois(que remédio!) serenei, entreguei-me à contemplação das panateneias e dos cavaleiros, das degoladas figuras dos deuses, das lutas entre os centauros e o lápitas. Dei lentamente duas voltas à sala, sabendo-me cúmplice a partir desse momento, e também consciente das minhas fracas forças, que de todo me impediriam de agir.
     Que poderia eu fazer? Protestar no Hyde Park? organizar um comício em Trafalgar Square? marchar sobre Bucingham Palace? alistar-me no exército secreto do Ira? Eu , pobre português ali perdido, que nem sequer vou reconquistar Olivença? Encolhi os ombros, saí da grande sala, e fui-me às outras colecções com esta insaciável fome de conhecimentos que algumas indigestões intelectuais me tem causado. E vi que tudo lá estava: as esculturas egípcias, as múmias, a pedra de Roseta, os leões assírios de cabeça humana, objectos, armas, utensílios, todo o mundo antigo arrumado e etiquetado - uma exemplar lição de arte e de história que me encheu de respeito pelas cabeças inglesas responsáveis.
     E foi ali que se fez luz no meu turvado espírito. Reparara eu que nos museus ingleses ninguém está à entrada, de bilhetes em riste, a fazer cobrança. Há sim, espalhadas pelas salas umas caixas de tampo de vidro, com ranhadura adequada, aonde o visitante é convidado a lançar a sua oferta, e onde se dá à leitura um aviso que diz destinar-se o dinheiro à compra de obras de arte para o museu. Tudo isto eu vira, e achara curioso e civilizado, sem mais.
    Mas, repito, O Museu Britânico foi a minha Estrada de Damasco. Ali compreendi que os ingleses envergonhados de tanto roubo estimulado ou consentido, procuravam fazer esquecer as suas malfeitorias estendento agora a mão à caridade pública. Compreendi que os coitados viviam atormentados pelos remorsos - e tive pena. Sentimental, com o olho humedecido pela lágrima lusitana, abri o porta-moedas, extraí meia libra generosa e enfiei-me na caixa.
    Depois disto, posso anunciar a toda a gente que a Inglaterra não voltará a cair em tentação. Está a juntar dinheiro para comprar o Museu do Louvre, com todo o recheio. Em boa e devida forma, e pelo seu justo valor.
     Desculpará o leitor a brincadeira: a culpa é deste mundo louco em que ambos somos obrigados a viver.



Meditação sobre o Roubo- José Saramago- Crônica do Livro A Bagagem do Viajante- " Uma viagem pela selva da vida contemporânea.
     

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

MANOELA - Júlio Dantas

     Cinco médicos amigos, reunidos num gabinete do Braganza - o antigo Braganza, que Eça de Queiroz comparava à tristeza opulenta dum pantheón - combinaram contar uns aos outros, durante o jantar, a maior gaffe cometida na sua vida de clínicos. O primeiro - o mais novo - foi o professor. Passou a mão pela barba, umedeceu os lábios com um gole de Champagne, e, brincando com a fita do monóculo, principiou:

     - Não sei se vocês conheceram o dr Valadares, jogador de fundos, muito assíduo na Bôlsa, tipo alto, perfil semita, pernas enormes, uma orquídea vermelha no casaco, umas mãos felpudas e cheias de anéis de brilhantes, "monsieurs qui travaillait dans les femmes du monde"; e de quem se falou muito, em tempo, com a mulher do Conde de Z. Pois bem. Êsse homem, aos cinquenta anos, em seguida a um golpe financeiro infeliz relacionado com a baixa súbita das ações das minas de oiro de Kaslo Slocan, meteu uma bala na cabeça. Sobrevieram acidentes de compressão, e foi preciso operá-lo. Chamou-se o professor F., de quem eu era então um dos internos na clínica hospitalar. A intervenção foi feita em casa do doente, um rico palacete inglês à Buenos Aires ( nem vocês calculam que admirável coleção de potiches da dinastia dos Ming de cinco côres!). O Bruges cloroformizou, e eu ajudei. Trepanamos o homem. Havia um forte derrame sanguíneo intra-craniano. Nos primeiros dias, tudo correu excelentemente. Mas quando já supúnhamos o doente livre de perigo, aparecera, de súbito sintomas terríveis: agitação, febre, convulsões generalizadas, delírio, todo o cortejo duma meningo-encefalite traumática. Mme Valadares - uma dessas mulheres serenas, majestosas, olímpicas, tão raras entre as portuguêsas, mais grandiosa do que bela, mais triste do que distinta - quis que um médico ficasse de noite junto do marido. O escolhido fui eu. Instalei-me num Maple, aos pés da cama, rodeei-me do instrumental necessário, não consenti junto de mim senão uma rapariga belga, bonne dos pequenos, e pedi a Mme Valadares, esgotada por três noites de vigília e de comoções, que se recolhesse um pouco no seu quarto. Condescendeu a ficar sôbre o divã, no escritório, com a condição de que eu iria chamá-la ao menor incidente que se produzisse. Vocês sabem o que são para todos nós, no princípio de nossa carreira, estas longas noites, à cabeceira dos operados, e calculam com que escrupulosa sentimentalidade procuraria desempenhar-me da minha missão - eu, pobre médico inexperiente, que punha ainda no exercício da clínica muito mais coração do que cabeça. As primeiras horas da noite passei-as a pretender conversar com a bonne, uma flamenga de Alost, deslavada e loira, que a tôdas as minhas perguntas respondia invariàvelmente oui ou non. Depois o doente absorveu-me por inteiro. A agitação aumentou, a temperatura subiu a 40 e dois décimos, instalou-se uma hemiplegia esquerda, e o desgraçado, coberto de suor, arquejando numa respiração estertorosa, começou a gemer, a implorar, a chamar:
     - Manoela! Manoela!
     Outro colega, mais calejado do que eu, não se teria ocupado excessivamente com o aspecto sentimental dêsse fait divers, e limitar-se-ia a cumprir, com fria serenidade, o seu dever de médico. Eu impressionei-me, enervei-me, julguei-me na obrigação moral de ser o intérprete da súplica do doente; fiel ao compromisso tomado com Mme Valadares, pedi à bonne que a fôsse chamar; e confesso que não percebi a razão por que a rapariga, impassível e chata como certas Virgens flamengas de Quentin Metzys, me respondeu, franzindo a bôca numa expressão evidentemente repreensiva, como se eu tivesse dito uma inconveniência:
     - Oh! Non, monsieur!
     Ela não quis ir - fui eu . Atravessei um corredor, entrei no escritório. Mme Valadares, que estava encostada num divã com um plaid pelos joelhos, quis saber o que havia. Disse-lhe que o marido a chamava. Ela olhou-me, fixamente, compôs os cabelos, que pareciam mais negros ainda na penumbra doirada da sala, ergueu o seu busto magnífico, digno de amamentar os catorze filhos de Niobe, e perguntou num sorriso doloroso:
     - O doutor está certo disso?
     - Sim, minha senhora. Chamou por V.Exa.
     - Está bem.
     Quando entramos no quarto, Mme Valadares, aproximou-se em silêncio, da cabeceira do moribundo.Êle viu-a, ou sentiu-lhe o perfume, estendeu para ela o braço, que a paralisia não tinha inutilizado, agarrou-lhe a mão, levou-a a bôca, cobriu-a de beijos, e, em delírio, com os olhos vidrados, as lágrimas a rolarem-lhe pelas faces, repetiu, duas, três, muitas vêzes:
     - Manoela! Manoela! Meu amor!
     Não sei se já lhes aconteceu, num dêstes dramas pungentes de família, não compreender a expressão paradoxal de certas fisionomias que rodeiam um doente ou um cadáver.Foi o que me sucedeu a mim diante daquela singular mulher em cuja face dura, ao mesmo tempo dolorosa e soberba, sarcástica e revoltada, eu julguei adivinhar um mundo de contraditórios sentimentos. Durante talvez meia hora, ela conservou-se de pé junto do leito, estátua de orgulho e dor, abandonando as mãos, com visível repugnância, aos beijos do marido. Em seguida, o doente caiu em coma. Mme Valadares libertou pouco a pouco a mão da pressão viscosa do agonizante, encarou-me, baixou ligeiramente a cabeça, e, sem olhar o marido saiu do quarto. Então uma dúvida terrível atravessou-me o espírito.
     - Madame Valadares não se chama Manoela? - perguntei à bonne, cuja cabeça dum loiro quase branco, vigiava da sombra.
     - Non, Monsieur, Madame s'appelle Jeanne.
     Compreendi tudo, meus amigos. Tinha feito a minha primeira gaffe. Manoela - soube-o depois era a encantadora mulher do Conde de Z, que endoideceu meia Lisboa, e que anda agora por aí, velha, quase cega, vestida de luto, encostada a uma bengala."



Júlio Dantas, escritor português, nascido em 1877. É o autor da famosa "Ceia dos Cardeais" e de "Rosas de todo o ano". Iniciou-se na vida literária com a poesia. Em 1806, escreveu o livro de poesias "Nada". Em prosa, deixou uma série de livros: "Apolo", "Espadas e Rosas", "Como elas Amam". Dedicou-se também ao teatro. Algumas de suas peças são: " O que morreu de amor", " Viriato Trágico", D.João Tenório". " Manoela é um pequenino conto, que se encontra no livro "Abelhas Doiradas".
     

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

SE - Rudyard Kipling

                                                                                                                                                                   

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando
e para esses no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a desgraça e o triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, porque deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade;

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho;
Tua é a Terra com tudo que existe no mundo,
e o que ainda é muito mais - tu és um Homem, meu filho!


Rudyard Kipling - Prêmio Nobel de Literatura de 1907- Contista, romancista, poeta, jornalista. Nasceu em Bombaim em 1865.


sábado, 5 de novembro de 2011

Punhados de: As Intermitências da Morte - José Saramago-

   
                                           Gabriel Orozco- Black Kites, 1997
                                                                       




No dia seguinte ninguém morreu.O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidente de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.
     [......] A tarde já ia muito adiantada quando começou a correr o rumor de que, desde a entrada de novo ano, mais precisamente desde as zero horas deste dia um de janeiro em que estamos, não havia constância de se ter dado em todo o país um só falecimento que fosse.
     [......] Embora a palavra crise não seja certamente a mais apropriada para caracterizar os singularíssimos sucessos que temos vindo a narrar, porquanto seria absurdo, incongruente e atentatório da lógica mais ordinária falar-se de crise numa situação existencial justamente privilegiada pela ausência da morte, compreende-se que alguns cidadãos, zelosos do seu direito a uma informação veraz, andem a perguntar-se a si mesmos, e uns aos outros, que diabo se passa com o governo, que até agora não deu o menor sinal de vida.É certo que o ministro da saúde, interpelado à passagem no breve intervalo entre duas reuniões, havia explicado aos jornalistas, que, tendo em consideração a falta de elementos suficientes de juízo, qualquer declaração oficial seria forçosamente prematura. Estamos a coligir as informações que nos chegam de todo o país, acrescentou, e realmente em nenhuma delas há menção de falecimentos, mas é fácil imaginar que, colhidos de surpresa como toda a gente, ainda não estejamos preparados para enunciar uma primeira ideia sobre as origens do fenómeno e sobre as suas implicações, tanto as imediatas como as futuras.
     [.....] Nem tudo é festa, porém, ao lado de uns quantos que riem, sempre haverá outros que chorem, e às vezes, como no presente caso, pelas mesmas razões. Importantes sectores profissionais seriamente preocupados com a situação, já começaram a fazer chegar a quem de direito a expressão do seu descontentamento. Como seria de esperar, as primeiras e formais reclamações vieram das empresas do negócio funerário. Brutalmente desprovidos da sua matéria-prima, os proprietários começaram por fazer o gesto clássico de levar as mãos à cabeça, gemendo em carpideiro coro.E agora que irá ser de nós, mas logo perante a perspectiva de uma catastrófica falência que a ninguém do grémio fúnero pouparia, convocaram a assembleia geral da classe, ao fim da qual, após acaloradas discussões, todas elas improdutivas porque todas sem excepção, iam dar com a cabeça no muro indestrutível da falta de colaboração da morte, essa a que se haviam habituado, de pais a filhos, como algo que por natureza lhes era devido, aprovaram um documento a submeter à consideração do governo da nação, o qual documento adoptava a única proposta construtiva, construtiva sim, mas também hilariante, que havia sido apresentada a debate. Vão-se rir de nós, avisou o presidente da mesa, mas reconheço que não temos outra saída, ou é isto ou será a ruína do sector. Informava pois o documento que, reunidos em assembleia geral extraordinária para examinar a gravíssima crise com que se estavam debatendo por motivo da falta de falecimentos em todo o país, os representantes das agências funerárias, depois de uma intensa e participada análise, durante a qual sempre havia imperado o respeito pelos supremos interesses da nação, tinham chegado à conclusão de que ainda era possível evitar as dramáticas consequências do que sem dúvida irá passar à história como a pior calamidade colectiva que nos caiu em cima desde a fundação da nacionalidade, isto é, que o governo decida tornar obrigatórios o enterramento ou a incineração de todos os animais domésticos que venham a defuntar de morte natural ou por acidente, e que tal enterramento ou tal incineração, regulamentados e aprovados, sejam obrigatoriamente levados a cabo pela indústria funerária, tendo em contra as meritórias provas prestadas no passado como autêntico serviço público que têm sido, no sentido mais profundo da expressão, gerações após gerações.O documento continuava. Solicitamos ainda a melhor atenção do governo para o facto de que a indispensável reconversão da indústria não será viável sem vultosos investimentos, pois não é a mesma cousa sepultar um ser humano e levar à última morada um gato ou um canário, e porque não dizer um elefante de circo ou um crocodilo de banheira, sendo portanto necessário reformular de alto a  baixo o nosso know how tradicional, servindo de providencial apoio a esta indispensável actualização a experiência já adquirida desde a oficialização dos cemitérios para animais, ou seja, aquilo que até agora não havia passado de uma intervenção marginal da nossa indústria, ainda que, não o negamos, bastante lucrativa, torna-se-ia em actividade exclusiva, evitando-se assim, na medida do possível, o despedimento de centenas senão milhares de abnegados e valorosos trabalhadores que em todos os dias da sua vida enfrentaram corajosamente a imagem terrível da morte e a quem a mesma morte volta agora imerecidamente as costas.



As Intermitências da Morte - José Saramago- De repente, a morte suspendeu suas atividades no país. A nação se embandeirou; tinha sido escolhida para a imortalidade, depois de milênios de sofrimento e sujeição à "indesejada das gentes". Ano Novo, vida eterna, pois desde 1º de janeiro ninguém mais morria nesse estranho canto do mundo inventado por José Saramago, uma fábula sobre os caprichos da figura macabra e ossuda que segura os fios da vida de cada um. Companhia das Letras-2006

  

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Justiça seja feita - Luis Fernando Veríssimo

     Justiça seja feita: o primo nunca abandonou o Brasílio. Mesmo quando o Brasílio morava na roça com a mulher e os três filhos, em Quintos, parte da Grande Cafundó, e não tinha o que comer, o primo ia visitá-lo para levar notícias. O Brasílio preferia que o primo levasse comida, talvez um dinheirinho, mas o primo sempre dizia que na próxima vez levaria. Novidades é que não faltavam. Em abril de 64, por exemplo, o primo chegou anunciando que trazia uma grande alegria para todos. A família do Brasílio se reuniu, pensando que fosse carne, mas era uma notícia:
     - O Brasil está livre dos comunistas!
     O primo contou tudo o que acontecera, com grande admiração, e se despediu dizendo que na próxima vez traria um feijãozinho. As crianças ficaram brincando de mocinho e comunista no quintal para disfarçar a fome. E naquela noite, antes de dormir, o Brasílio comentou com a mulher que as coisas podiam ir mal, mas pelo menos não pairava mais sobre suas cabeças a ameaça do anarco sindicalismo.
     Na sua visita seguinte o primo chegou um pouco desanimado. Não estava gostando dos rumos que tomava a Revolução, aparentemente dominada por setores reacionários que representavam uma ameaça às liberdades públicas. Começaria um período de arbítrio e obscurantismo, o que assustou as crianças. O Brasílio perguntou se o primo trouxera o feijãozinho, e o primo, já na porta, se desculpou:
     - Ando tão preocupado com as instituições que esqueci.
     Brasílio e a família - mulher e seis filhos - tiveram que ir para a cidade, procurar emprego, e a visita seguinte do primo já foi no barraco. O primo estava eufórico. Estava acontecendo um milagre  econômico no Brasil. Era o país que mais crescia no mundo. Em breve, como dizia o Delfim, o bolo seria repartido entre todos. A família do Brasílio começou a salivar e o primo pensou que fosse de orgulho pelo PIB. Depois deu um tapa na testa. Com toda aquela agitação, Copa do Mundo e tudo, esquecera de trazer comida. Ficava para a próxima visita.
     O primo teve alguma dificuldade para encontrar Brasílio, a mulher e os nove filhos para visitá-los, depois que foram despejados do barraco. Finalmente encontrou a ponte certa. Chegou dizendo que viera compartilhar uma coisa com eles.
     - Comida?
     - Não. Minha angústia com o nosso endividamento externo. Nossa soberania está ameaçada.
     Depois que o primo saiu, prometendo que na próxima vez traria comida, o ambiente ficou carregado embaixo da ponte. Nossa soberania ameaçada. Puxa. E aquelas outras coisas de que o primo falara. Corrupção nas altas esferas. Ameaça de retrocesso no processo de abertura. Chato!
     Quando o primo apareceu de novo, estava vibrando.
     - Finalmente! O que vocês esperavam!
     - Oba!
     Brasílio, a mulher e os doze filhos foram buscar as panelas, gamelas, sacos, canecas, tudo o que podiam para receber a comida. Mas não era comida. Era a notícia da vitória iminente do Tancredo. Houvera um movimento nacional pelas eleições diretas. Depois de um clamor nacional pró Tancredo e contra Maluf. Era o começo de novos tempos!
     - Trouxe comida? - perguntou o Brasílio.
     Aí o primo se impacientou.
     - Todas estas coisas acontecendo no país e você só pensa em comida?!


Do Livro: A Mãe do Freud - Luis Fernando Veríssimo.

sábado, 1 de outubro de 2011

As Pastoras - Do Livro a Velha Guarda da Portela- João Baptista M.Vargens e Carlos Monte

     Provei do famoso feijão da Vicentina
     Só quem é da Portela
     É que sabe que a coisa é divina.
Paulinho de Viola
   
     AS PASTORAS

     Dia 8 de dezembro! Salve Nossa Senhora da Conceição!Oraeeuerô minha mãe Oxum!
     No dia 8 de dezembro de 1934, exatamente 41 anos antes de Candeia e seus companheiros fundarem o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Samba Quilombo, João Petra de Barros entrou no estúdio da Odeon para gravar a marcha rancho Linda Pequena, de Noel Rosa e Braguinha. Informam João Máximo e Carlos Didier que a obra fora composta no Café Papagaio, situado na rua Gonçalves Dias. Os compositores fizeram a música calcados no ritmo de um rancho que saía pelas ruas de Vila Isabel no Dia de Reis.
 
     A estrela d'alva
     No céu desponta
     E a lua anda tonta
     Com tamanho esplendor
     E as moreninhas
     Pra consolo da lua
     Vão Cantando na rua
     Lindos versos de amor

     Linda pequena
     Pequena que tem a cor morena
     Tu não tens pena
     De mim
     Que vivo tonto com o teu olhar
     Linda criança
     Tu não me sais da lembrança
     Meu coração não se cansa
     De sempre e sempre te amar

     A música não fez sucesso . Em 1938 um ano após a morte de Noel, Braguinha apresentou  em um concurso promovido pelo DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, na Feira de Amostras. A letra foi um pouco alterada:

     A estrela d'alva
     No céu desponta
     E a lua anda tonta
     Com tamanho esplendor
     E as pastorinhas
     Pra consolo da lua
     Vão cantando na rua
     Lindos versos de amor


     Linda pastora
     Morena da cor de Madalena
     Tu não tens pena
     De mim
     Que vivo tonto com o teu olhar
     Linda criança
     Tu não me sais da lembrança
     Meu coração não se cansa
     De sempre e sempre te amar

     O título de Linda pequena passou a Pastorinhas e a canção foi a vencedora do concurso. Sílvio Caldas imortalizou a obra gravando  acompanhado pela Orquestra de Napoleão e seus Soldados Musicais, nome que sugere a efervescência belicosa que impregnava a atmosfera mundial na época.
     A marcha, que provavelmente foi composta para os grupos de pastoris, imperou no carnaval seguinte e se perpetuou entre os clássicos das canções momescas.
     Nas primeiras décadas do século XX, alguns dias antes do Natal, grupos de moçoilas e rapazes, esses em menor número, caminhavam pelas ruas da cidade cantando e dançando, festejando o nascimento de Jesus Cristo. À frente do cortejo, uma jovem vestindo túnica branca, segurava uma vara que trazia na ponta uma estrela. Representava a estrela guia que orientou os Reis Magos a encontrarem a estrebaria onde nasceu o Menino Deus. Logo depois vinha a figura do Velho. De barba e cabelos brancos, apoiado em um cajado, ele cantava:
     Caminhemos, caminhemos
     A lapinha de Belém
     Visitar a Deus Menino
     Que salva o mundo vem
 
     As pastoras, balançando os corpos sestrosos ao ritmo da música, repetiam os versos entoados pelo Velho.
     Os desfiles dirigiam-se às casas de amigos. Diante dos presépios, as pastoras em roda, adoravam o Recém nascido, entoando cânticos em alusão ao evento.
     Jota Efegê, relembra que um momento bem humorado do ritual era o "Namoro do Velho". Nesse instante, o ancião insinuava-se para as pastoras, dirigindo-lhes galanteios, e elas o repeliam:
 
     Sai daqui, ó velho
     Velho impertinente
     Não faça vergonha
     No meio da gente
   
     Após muita insistência do Velho e repúdio das pastoras, cessava a música e os anfitriões distribuíam castanhas, figos, rabanadas e passas entre os participantes.
     Sob o aplauso da platéia, após o apito do Mestre, os músicos deixavam a casa, acompanhados das pastoras, arrastando os pés e cantando.
 
     Caminhemos, caminhemos
     À lapinha de Belém
     Visitar o Deus Menino
     Que salvar o mundo vem
 
     E seguiam de casa em casa, repetindo a cerimônia.
     [......] Em Oswaldo Cruz, as pastorinhas se encontravam na casa de dona Martinha, madrinha da Portela escolhida por Paulo Beijamim de Oliveira, de onde iniciavam o cortejo.
     As pastorinhas dos festejos natalinos migraram para os ranchos carnavalescos, que incorporaram muitas características dos pastoris: o compasso rítmico, as castanholas, as marchas. As pastoras formavam o coro dessas agremiações.

Punhados do Livro A Velha Guarda da Portela- João Baptista M Vargens e Carlos Monte. "A Portela não foi fundada; Nasceu por obra e graça do Espírito Santo"- Antonio Rufino dos Reis.

domingo, 25 de setembro de 2011

GHANDI - Sua Vida e Mensagem para o Mundo - Louis Fischer

     [.......] Perpétuo reformador de homens, Ghandi aceitava-os, não obstante, como eles eram. O amor tornava-o indulgente. Possuía um código extremamente rigoroso de conduta para seu próprio uso, e outro código, indulgente, para aplicar aos outros. Vivia em feliz harmonia com os homens e as mulheres por ele convidados a fazer parte do ashram, mas que não acreditavam em Deus, nem na não violência, nem na castidade, nem nele mesmo. Na verdade, encorajava a rebelião e o não conformismo, considerando-os como sendo recursos auxiliares no desenvolvimento do indivíduo. A deslealdade para com ele nunca o perturbava; perturbava-o porém, a deslealdade para com princípios.
     A universal deslealdade para com os princípios, sob todos os sistemas sociais, se deve ao custo deles. Sob a ditadura o custo pode ser a morte; numa democracia, o desconforto e o embaraço. Ghandi estava pronto a pagar, fosse qual fosse o preço dos princípios pelos quais se batia. Quanto mais pobre ele fosse, de bens materiais, tanto mais ele poderia pagar. E tanto mais rico o pagamento o deixaria em moeda do espírito, que era a única moeda a que ele atribuía valor.
     Ghandi alimentava a mesma atitude nos outros. Dizia aos seus associados, que sacrificassem suas relações e seus contatos com ele, em nome e em benefício de suas próprias crenças. Ele não chefiava apenas um movimento, fazendo esforços para o seu bom exito; estava forjando uma nação, pela moldagem de homens. Se estava para ser pai de uma nação, então queria ter filhos gigantes.Quando defrontado pela oposição, no partido do Congresso, ou no círculo das pessoas mais chegadas, no ashram, Ghandi, por vezes, cedia a ela,muito embora pudesse facilmente superá-la; respeitava a divergencia. Esse respeito é o maior signo de masculinidade. De uma feita, numa conferencia sobre educação básica, todos os participantes concordaram com Ghandi, exceto Zakir Hussain, mestre-escola muçulmano. Ghandi nomeou-o presidente da sociedade em prol da educação básica. A força de vontade do Mahatma , juntamente com sua fé fanática nos princípios, poderia te-lo transformado em ditador; ele tinha um vínculo de ditador dentro de si, mas o seu interesse na formação de indivíduos o tornava democrata.
     Consequentemente, o séquito de Ghandi se fez grande , diverso e difuso, Sua personalidade atraía também uma ampla série de líderes. [......]
   
                                                Ghandi com Chaplin em Londres 1931
 [....] O Mahatma Ghandi não amava a humanidade em sentido abstrato; amava os homens, as mulheres, as crianças; e esperava auxiliar a todos, como indivíduos específicos, e como grupos de indivíduos. Ele pertencia lhes; eles sabiam disto; e, por isto, pertenciam a ele. Por dar guarida ao desleal, ele desfazia a deslealdade. A sua lealdade provocava a deles. Desta maneira, durante os piores anos de derrota e de depressão, de 1924 a 1929, ele se preparou para os triunfos ulteriores. A Índia, agora, o chamava "Bapu" - Pai.


Punhados da Biografia de Ghandi, "Eis aqui a vida e a mensagem do líder hindu que com a força da não violência, libertou politicamente sua nação do jugo britânico." Livro GHANDI- Sua Vida e Mensagem para o Mundo - Louis Fischer - Título do original norte americano GHANDI - His Life and Message for the World by Louis Fischer.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os Primeiros Ensaios: Sobre o Amor- Woody Allen

     É melhor amar ou ser amado? Nenhum dos dois, se a sua taxa de colesterol estiver acima de 600. Pelo amor, naturalmente, refiro-me ao amor romântico - por exemplo entre homem e mulher, e não aquele entre mãe e filho, uma criança e seu cão ou entre dois garçons.
     O maravilhoso da coisa é que, quando se ama, tem se um impulso de cantar. Deve-se resistir a isto a todo custo, tomando cuidado também para que o ardente apaixonado não "diga" as letras das músicas. É evidente que ser amado é diferente de ser admirado, já que sempre se pode ser admirado a distância - enquanto, para se amar de verdade uma pessoa, é preciso estar no mesmo quarto com ela e, de preferência, enrolado atrás das cortinas.
     Para ser um grande amante, deve-se ser forte e, ao mesmo tempo, terno. Mas forte até que ponto? Acho que basta conseguir levantar 30 kilos. É preciso também ter em mente que, para quem ama, a mulher amada é sempre a coisa mais linda do mundo, mesmo que, para um estranho, ela seja indistinguível de um prato de mexilhões. A beleza está em quem vê. Se quem vê for míope ou estrábico deve perguntar à pessoa ao lado qual é a garota mais bonita. (Na realidade, as mais bonitas são geralmente as mais burras, e esta é uma das razões pelas quais muita gente não acredita em Deus).
     "As alegrias do amor duram apenas um instante", cantou o bardo, "mas suas dores duram uma eternidade". Esta canção tinha tudo para fazer sucesso, mas a melodia era muito parecida com a de I'm a Yankee Doodle Dandy.

Do Livro Woody Allen Sem Plumas, tradução de Ruy Castro, este livro traz 18 textos de formatos variados- peças, ensaios, contos, argumentos e outras improbabilidades - que tem em comum a imaginação e o humor característico de Allen.

terça-feira, 20 de setembro de 2011